O que o mal estar da civilização tem a ver com o asno de ouro?

Atualizado: 14 de ago. de 2020

Essa é uma pergunta capciosa que pode levar o leitor a tirar conclusões precipitadas. Na verdade estamos falando de amor e civilização. Tanto as ciências como as artes trazem narrativas que permitem elucidar uma infinidade de caminhos. Hoje queria trazer uma interface entre um mito de Apuleio e uma obra do psicanalista Sigmund Freud.


É interessante como a leitura dos mitos pode trazer material para compreender a condição humana. Na obra O asno de ouro, de Apuleio, são retratadas diversas transformações da personagem principal, chamada Psiquê (nome sugestivo, não?). O enredo é uma ode ao amor, mas também diz sobre brigas fraternas e relações familiares conflituosas, tendo a natureza como parte integrante do homem. A necessidade humana de buscar algo que preencha os seus vazios fica evidente no desenrolar da trama. São tantos temas possíveis de serem abordados! Justamente por isso que a literatura, nesse caso mitológica, pode abrir tantas possibilidades de interpretação.


Outro assunto importante que aparece nessa obra é a questão das divindades da época, o que enriquece o texto com a dimensão do sagrado. Nota-se que é um romance escrito no século II d.C. Apesar da distância temporal, os mitos nos ajudam a entender o mundo que nos rodeia. E ainda, traz a possibilidade de abertura ao diálogo com a contemporaneidade, o que permite situar a nós mesmos no tempo presente. Afinal, o que não mudou é a necessidade de vivermos em uma civilização, relacionando-nos um com os outros.


Viver em sociedade não é fácil e Freud já discorreu bastante sobre isso no passado, mais precisamente em 1930, data da primeira publicação do seu livro O mal estar da civilização. Nessa obra o autor alerta que a vida em grupo, em sociedade, é possível na medida em que somos capazes de abrir mão de algo. O mito da liberdade individual, que tanto pregam as sociedades neoliberais, cai por terra. Entender que somos seres em relação é fundamental para exercitar o respeito ao outro e tentar, assim, dar conta de tudo aquilo que nos desagrada. Tanto o que trazemos dentro de nós, como aquilo que não suportamos no outro.


Um mundo guiado pelo amor não existe nem nos contos de fada. Branca de Neve era perseguida por um ódio mortal da rainha Malévola, que nutria em si a inveja da beleza da outra. Freud disse categoricamente que somos dotados de agressividade. Não discordo dele nesse ponto. Entender que temos dentro de nós sentimentos ambivalentes é um começo para a jornada do autoconhecimento. É conhecendo nossas sombras que podemos nos situar no mundo de uma maneira mais construtiva e com possibilidades de estabelecer relações mais saudáveis.


Um grande abraço e até a próxima!


Um artigo sobre O asno de ouro pode ser lido aqui:


http://w3.ufsm.br/revistaideias/Artigos%20rev%2021%20em%20PDF/a%20metamorfose%20da%20personagem%20psique.pdf


Acesse a obra de Freud no link abaixo:


https://www.netmundi.org/home/wp-content/uploads/2019/04/FREUD-Sigmund.-O-mal-estar-na-civiliza%C3%A7%C3%A3o-In-Obras-completas-volume-18.pdf


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