A única proibição da cultura que tem caráter universal

Para compreender o humano é necessário olhar por diversas dimensões, dentre elas a biológica e a social. Enquanto a primeira está relacionada à natureza, dotada de herança biológica e leis universais que a regem, a segunda está ligada à cultura: o conjunto de crenças, costumes e valores que regem os grupos sociais. Entender onde se dá a passagem do que é natural para o que é cultural é um desafio. O antropólogo Claude Lévi-Strauss encontrou no critério “ausência de regra” uma maneira de diferenciar um processo cultural de um natural, colocando no epicentro da teoria, o enigma do incesto.


Em seu livro As estruturas elementares do parentesco ele faz uma divisão dos fatos humanos em duas categorias: fatos da natureza e fatos da cultura. Os fatos da natureza, segundo o autor, são universais. Ele atribui essa universalidade ao conjunto de leis físicas e biológicas que regem a natureza. Já os fatos da cultura são normas sociais criadas ao longo da história que permitem ao humano viver em comunidade. A proibição do incesto, ocupa então, um lugar único:

é uma regra social com caráter universal.

Tal pensamento leva Lévi-Strauss a defender a tese de que a proibição do incesto marca a “instauração da cultura no seio da natureza”. Muito difícil marcar onde exatamente começou o que podemos chamar de cultura. A mito do Édipo Rei, peça escrita por Sófocles por volta de 427 a.C traz a temática do incesto permeada por toda a tragédia grega da época. Anos depois, Freud desenterra o mito para falar do Complexo de Édipo, referindo-se a uma etapa do desenvolvimento da criança. De uma forma bem resumida, o menino (por volta dos 3 a 6 anos de idade) aprende a amar em casa por meio dos afetos, atraindo-se pela mãe e tendo o pai como rival. Com o temor da castração e consequente vitória do pai (que fica com a esposa) a criança introjeta em si a proibição da relação incestuosa, que é o ponto central da organização afetiva nesse modelo psicanalítico. Ao ocorrer o corte da relação do bebê com a mãe, instaura-se o superego, responsável por estruturar internamente os valores morais, fundamentais para o desenvolvimento da pessoa em sociedade.


O tabu do incesto é a regra fundamental da existência do grupo humano, segundo a psicanálise.

Na época, essa teoria causou um rebuliço no meio científico e continua a causar até hoje. Um dos questionamentos se deve ao fato de que as relações afetivas não se resumem aos casais heterossexuais. A psicanálise passa então, a nomear de função materna e função paterna, as quais podem ser exercidas tanto por homens como por mulheres.


Tirando as dificuldades que o modelo psicanalítico traz para os leigos nessa área, devemos concordar que tanto Freud como Lévi-Strauss concordam com a proibição do incesto. Um enfatiza o ponto de vista da instauração da cultura e o outro, o advento do superego.

Um abraço e até mais!

Rodrigo Pazzinatto

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